Não aceito que o meu marido me ajude na cozinha!

Há alguns anos, eu estava almoçando com várias amigas quando, de repente, soltei esta frase: “não aceito que o meu marido me ajude na cozinha”. Houve um breve silêncio tenso. Naquela roda, eu era vista como uma mulher moderna e aquela frase parecia contradizer tudo o que eu já dissera antes. E alguém quebrou o silêncio, perguntando: “Como assim? Quando o meu me ajuda, eu dou Graças a Deus. É um alívio!” Baixando a tensão do momento, expliquei: Gente! A palavra que quero ressaltar aqui é “ajudar”. Por que ele me ajudaria? Isto pressupõe que a obrigação das tarefas domésticas seja apenas minha. Afinal, ele não usa as louças, banheiro, roupas e a casa toda, tanto quanto eu? Então, ele também tem responsabilidades em relação aos cuidados e limpeza de tudo isto. Esta responsabilidade é genuinamente compartilhada. No fim-de-semana, quando ficamos sem a empregada, ou mesmo quando trocamos de empregada, simplesmente dividimos as obrigações sobre as tarefas, ou seja, negociamos. Esta é uma palavra que muitas mulheres precisam compreender e usar melhor: Negociação. Para muitos, ela pode dar a impressão de tornar o relacionamento frio e até comercial. Se prestarmos atenção, veremos que a regra que rege as relações atuais, tanto as mais íntimas, entre pais e filhos, como entre gestores e colaboradores, entre sindicatos e empresas e entre as nações, é a da negociação, pois sem ela, a opção que resta é a do autoritarismo, onde alguém manda e o outro obedece. Como diz José Augusto Wanderley, em seu livro Negociação Total, “Você é um negociador, quer queira, quer não. Negociar é enfrentar para encontrar soluções.”

E o que ocorre com muitas de nós, mulheres modernas e bem sucedidas, que, muitas vezes, ainda temos receio de abordar esta questão com nossos companheiros com simplicidade? Será que ainda guardamos a crença de que as tarefas domésticas são obrigações da mulher? Ou será que o medo de enfrentar este parceiro é grande? Medo de desagradá-lo? De ser menos útil a ele? Então, ainda cremos que é o fato de sermos tão úteis e agradáveis que irá mantê-lo ao nosso lado? Ou mantemos um sonho oculto de alcançarmos o status de sermos supermulheres?

Por outro lado, quais as conseqüências deste posicionamento, de não negociar explicitamente esta questão? Mágoa! Quantas vezes nos sentimos ressentidas “porque ele não enxerga” que estamos tão cansadas e ainda temos que lavar o banheiro, cuidar das crianças, do jantar, da louça...? E pra onde vai este ressentimento? Tentamos colocá-lo embaixo do tapete pelo máximo de tempo possível, mas, repentinamente e fora do nosso controle, ele explode em frases agressivas e lá se vão algumas horas ou até dias de um clima tenso e de afastamento do casal. O companheiro, neste momento, pode ficar perdido. Geralmente, não compreende toda aquela ira e acha que “tudo isto só por causa de uma loucinha de nada?” Ele complementa: “era só me pedir e eu te ajudaria...” Daí, ele também se ressente, se sente injustiçado e traído, ao ter contato com aquela face vilã da sua parceira, geralmente tão doce.

Ou será que não queremos negociar porque, afinal, também utilizamos mais dos recursos financeiros do trabalho dele do que o devido e não queremos que isto entre na conversa? Se for assim, a troca está bem feita e é só assumir que perdemos de um lado, mas ganhamos do outro.

Gente, não precisamos ser vítimas e nem vilãs. Podemos atuar de modo bem melhor do que isto. Que tal assumirmos um posicionamento mais realista e eficaz? Se a troca, quanto às responsabilidades, não estiver equilibrada, vamos propor esta conversa e colocar os pontos nos ‘is’? Não queremos ajuda, queremos uma troca igualitária e justa. Falar claramente e com serenidade o que se pensa, sem esperar pela explosão, costuma dar resultados bem melhores. Que tal abandonarmos o desejo de sermos super mulheres e passarmos a ser mais realizadas?

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Autora: Dra. Elizabeth Zamerul Ally, médica psiquiatra, psicoterapeuta, especialista em Dependência Química e Codependência www.dependenciaecodependencia.com.br



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