Dependência Emocional e Transtornos Psiquiátricos

No dia-a-dia, trabalhando continuamente em psicoterapia com pessoas que sofrem de Dependência Emocional (o mesmo que Codependência), noto que muitos destes pacientes chegam em estado de sofrimento tão grave que necessitam também de cuidados psiquiátricos. A maior parte tem queixas de insônia, forte ansiedade, angústia, falta de energia, desânimo, crises de choro frequentes, negativismo, dificuldade importante de tomar decisões, e vários em tal desespero que cultivam idéias suicidas ou já fizeram tentativas de suicídio.

O que surgiu primeiro?

Em psiquiatria, quando um indivíduo tem dois ou mais transtornos psiquiátricos simultaneamente, chamamos a condição de Comorbidade e a Codependência se encaixa bem nesta categoria, porque costuma caminhar junto com outros distúrbios psiquiátricos sérios. Os envolvidos buscam entender, naturalmente, o que está acontecendo e geralmente sou questionada sobre quem veio primeiro, a Dependência emocional ou outros transtornos e tenho notado que ocorrem várias possibilidades. Em muitos casos, a Codependência é primária. Uma situação bem comum, que exemplifica isto, é a da pessoa que sofre deste mal e, estando envolvida num relacionamento destrutivo, desenvolve o transtorno misto de depressão e ansiedade. Outro exemplo comum é o da mulher que se divorcia, não aceita a separação, começa a usar calmantes e medicamentos para insônia e adquire a dependência de psicotrópicos ou que começa a usar bebidas alcoólicas em demasia e evolui para a Dependência do Álcool. Por outro lado, há casos em que a Codependência caminha paralelamente com um transtorno de personalidade, como por exemplo, o Limítrofe ou Borderline. Nestas situações, é difícil esclarecer quem veio primeiro. Pelas observações clínicas, o mais provável é o desenvolvimento conjunto e intrincado das duas condições, ou seja, uma condição agrava a outra e vice-versa.

Na Codependência, além dos relatados acima, vários outros traços ou distúrbios psiquiátricos costumam ser observados, como a Dependência de outras drogas, Dependência de jogos, ou de compras, ou de internet, ou de redes sociais; a compulsão por alimentos, bulimia, outros transtornos de personalidade, transtorno do pânico, transtorno do estresse pós-traumático, etc. Além destes, também é comum o surgimento ou agravamento das doenças psicossomáticas, outro tópico significativo na vida destes pacientes, já tão sofridos.

Quais as consequências?

O que vemos claramente, na Codependência, é que, no decorrer dos anos, a vivência de relacionamentos destrutivos, muitas vezes numa sequência infindável, leva à degradação da psiquê do indivíduo, através de frequentes perdas, frustrações, culpa, vergonha, medo, raiva, sentimento de impotência, de perda do controle da vida, de inadequação e de inferioridade, que podem causar prejuízos em todas as áreas da vida porque vão lesando a autoestima, a autoimagem e a autoconfiança da pessoa.

Como tratar de modo eficaz?

O que agrava toda esta situação é que os diagnósticos demoram a ser feitos (quando são feitos) e a resistência que muitos destes pacientes colocam ao tratamento psicoterápico e ainda mais ao psiquiátrico. Por isto, é necessário que a pessoa que sofre da Codependência estude e busque compreender ao máximo este distúrbio, assim como os outros relacionados, para que se conscientize da necessidade de tratar tudo o que é necessário. Isto dificulta muito o sucesso do tratamento pois um distúrbio alimenta o outro. Por isto, nossa sugestão é que o indivíduo busque profissionais realmente capacitados nas duas áreas e que confie nas indicações terapêuticas deles, para que as mudanças necessárias ocorram e que ele possa trilhar o caminho de retorno a uma condição mais saudável e de poder sobre si mesmo.

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Autora: Dra. Elizabeth Zamerul Ally, médica psiquiatra, psicoterapeuta, especialista em Dependência Química e Codependência www.dependenciaecodependencia.com.br